quarta-feira, 4 de julho de 2018

a pantera do poeta


O pintor de paredes

Um dia, há várias décadas o amanuense
pensava em ser pintor. Não,  não é de parede não;
até porque de parede já o era e naquela espera de pintar
tela, também  meditava naquilo  que acreditava. Em sua falta
de modéstia meditava em Rafael, Da Vinci, Van Gogh, enfim como
deve ser  um poeta sonhador. Numa confortável tarde, num profun-
do relaxamento, após já haver pintado mil telas, ouviu  uma meiga
voz:  Escreva meu filho, essa é  a sua missão, o pintor retrucou,
mas;  meu Senhor, “ um quadro fala por mil palavras”, ouviu-
se a tréplica, levanta-te daí vagaroso ser, pois, acabo de
me compadecer de ignóbil ser sem querer me abor-
recer, quando um quadro fala por mil palavras
não se lavra para qualquer ser, esse ser há
de ser quase iluminado, como esse aí ao teu
lado. Ao  meu lado?  Pensou que fosse o seu cunhado
o qual passava todo empertigado, o cara era meio enjoado.
Ah… Qual  era o assunto mesmo? Ah… Sim sobre o cara que
queria   pintar e  bordar o sete.  Porém, o pintor era  teimoso e
manhoso,   passando a   mão num cinzel    foi quebrar pedras
para  disfarçar   a insensatez   da sua morbidez  como se bu-
rilasse  os céus,  porém, naquela  virtual besteira,   sobre uma
esteira  ao esculpir  tanta poeira não a resistiu. Mas aquela ben-
dita poeira o fez desistir  ao invés, êpa, ou em vez de  resistir?
Ah… Só por essa vez, ou por esta vez, agora sou escritor, faça-
me o favor, que se lasque o português, ele que fique lá na sua
padaria  todos os dias  com seu freguês, somente desta vez.
com o circunflexo e tudo, seu português barrigudo. A medi-
tação foi a sua salvação, foi de lá que veio a
amorável  imposição.  A musa o tomou pela
mão e o  fez escrever  ao lado duma tela  para sair
daquela  megera rejeição  e partir para uma nova
era  qual não era a sua menor  intenção, ou era?
Lembrou-se  do seu quadro chamado: Pantera
Negra, enquanto  em sua testa formava uma nesga,
quando  o pintor  acordou, acordou que  uma no-
va  era chegou,  então pintor-poeta  pensou, a-
gora  vou escrever poesias, tentando sair da
pintura, qual  tortura o fez escritor estético
com   teclado cheio de pinceladas enxoval-
hando o monitor de uma dessas máquinas
modernas  com tinta azul claro, como di-
ria Pablo Neruda a um Carteiro qualquer
em seu poema raro na intenção de que
dali saísse um salvador Dali
esperando Gala e Pablo Picasso
dentro de tempestuosa Guernica  violenta.
Ah… o pintor já estava esquecendo de Victor
Brecheret empurrando uma manada numa praça
da  São Paulo da  Garoa um “Monumento às  Ban-
deiras”.  Daí pra frente  passou a escrever até que
perdeu  o senso  tornando-se  dependente do vício.
Até o  velho negro  felino do poeta ficou boquiaberto,
já, meio digitalizado com  qualquer editor apropriado.
Aí, meio contrariado  o poeta resmungou: Que se dane
a orelha de Van Gogh e foi escrever todos os dias suas
poesias!
Pode?




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